Josefo, Tiago e Jesus
"O jovem Anás (...) era precipitado em seu temperamento e inusitadamente ousado. Seguia a Escola dos Saduceus, que são de fato mais insensíveis que qualquer dos outros judeus (...) quando julgam. Sendo portanto este tipo de pessoa, Hananias, pensando ter uma oportunidade favorável, pois que Festo tinha morrido e Albino estava a caminho, convocou o Sinédrio e colocou diante dele o irmão de Jesus, o assim chamado Cristo, de nome Tiago e alguns outros. Acusou-os de terem transgredido a lei e os entregou para serem apedrejados. Mas isso exasperou até os mais zelosos observadores da lei, que mandaram um encarregado ao Rei com o pedido de exigir por escrito de Anás que desistisse de qualquer outras ações, pois não havia sido correto em seu primiero passo. Alguns deles foram ter com Albino, que estava a caminho proveniente de Alexandria, e informaram-no de que Anás não tinha autoridade para convocar o Sinédrio sem seu consentimento. Convencido por essas palavras, Albino rapidamente escreveu a Anás ameacando-vingar-se dele. O Rei Agripa, por causa da atitude de Anás, afastou-o do sumo sacerdócio que ele exercera por três meses e o substituiu por Jesus, o filho de Damasco" (Antiguidades Judaicas 20.9.1 § 200-203)"

Há consenso quase universal entre os estudiosos de que a passagem é autentica:
Em analise detalhada da literatura acadêmica em relação a essa passagem, o Professor Louis Feldman, da Yeshiva University, decano dos estudos sobre Flavio Josefo, nos informa em relação a autenticidade:
"Que, de fato, Josefo realmente escreveu algo sobre Jesus é indicado, acima de tudo, pela passagem - que é reconhecida quase universalmente como autêntica - sobre Tiago, que é referido (Antiguidades XX:200) como o irmão do já mencionado Cristo" [1]
Da mesma forma, Dr. Paul Winter, que analisou quase meia centena de estudos acadêmicos sobre Josefo e Jesus, observa:
"os estudiosos que consideram a segunda passagem [a de Tiago] genuina são mais numerosos que aqueles que o consideram a primeira (Testemunho Flaviano). A maiores dos autores que rejeitam Antiguidades 18.3.3 (63-64) como espúria, não tem dúvidas em relação a autenticidade de Antiguidades XX.9.1.200" [2]
Dos 47 estudiosos consultados por Winter, entre 1812 e 1968, ele cita apenas 5 que consideraram tanto o Testemunho Flaviano (Antiguidades 18:63) como inteiramente falso e a frase "Tiago, irmão de Jesus, chamado do Cristo" (Antiguidades 20:200) como interpolada. Dos 25 estudos realizados de 1918 a 1968, somente 1 (4 %) considerou falsas as duas passagens[2].
Argumentos favoráveis a autenticidade:
A aceitação da passagem como autentica é quase unânime. Uma vez, porém, que existe alguma literatura acadêmica que conteste a frase "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo", embora bastante reduzida, e uma infinidade de páginas na internet, elaboradas por leigos, que a rejeite violentamente, vamos analisar aqui tanto os argimentos para autenticidade, como aqueles que afirmam que a frase foi inserida (interpolada) no texto original de Josefo por escribas cristãos.
a) A passagem consta em todos os manuscristos e versões de Josefo: Professor John Painter observa que a passagem acima sobre Tiago, irmão de Jesus ocorre em todos os manuscritos existentes, em grego e outras linguas, o que implica que, aqueles que negam a autenticidade tem sobre si o ônus da prova [3].
b) Contexto: Os professores Gerd Thiessen e Annete Merz, das Universidades de Heildelberg e Utrecht, apresentam algumas razões para o texto ser ao autentico, ligadas ao contexto: i) texto estar bem ligado ao contexto, ii) não há interesse da passagem em Jesus, iii) o termo "tou legomenos Christos" (que é chamado Cristo) "não implica aprovação ou dúvida". O cognome "Cristo" aparece apenas para diferenciar Jesus das inúmeras pessoas com o mesmo nome. [4].
c) O foco da passagem é na conduta e deposição de Anás II, e não em Tiago: John P.Meier, professor da Universidade de Notre Dame, observa que tem-se aqui uma referencia banal, de passagem, a alguém chamado Tiago, que Josefo certamente considera um personagem menor, o foco não é em sua execução, mas na forma em que foi decidida, uma atitude precipitada de Ananias, que convoca o Sinédrio ilegalmente, estando o governador romano ausente, e que resulta em uma série de eventos que culmina em sua deposição do cargo [5].
d) A identificação Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo" não é encontrada em nenhum lugar da literatura cristã: Meier também observa que em nenhum lugar da vasta literatura cristã (NT, Apócrifos, Nag Hammadi, Pais da Igreja) pré Origenes, existe a expressão, digamos, mundana "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo" (ton adelphon Iesou tou legomena Christou). Com a deferência e respeito habitual dos cristãos, temos sempre "Tiago, o irmão do Senhor" (ho adelphos tou Kyrious), o irmão do Salvador (ho adelphos tou Soter), no mínimo Tiago, o Justo ou Tiago de Jerusalém. De modo geral, um interpolador utilizaria frases ou termos emprestados do Novo Testamento e/ou da literatura ou pregação cristã. Uma vez que em lugar nenhum se encontra essa frase nos textos cristãos, é muito pouco provável que a frase tenha sido inserida no texto por um escriba, e quase certo que a identificação "irmão de Jesus, chamado Cristo" venha de Josefo [5].
e) A história de Josefo é completamente diferente da versão cristã: Meier também observa que a narração de Josefo do martirio de Tiago difere em tempo e forma do autor cristão Hegesipo (segunda metade do século II), no qual os escribas e fariseus emperraram Tiago, o Justo, das arreias do Templo de Jerusalém; começaram a apedreja-lo, mas foram detidos por um sacerdote, finalmente, um lavandeiro o matou a pauladas. Pouco tempo depois Vespasiano cercou a cidade e Jerusalém foi destruida (Historia Eclesiastica 2.23.12-18). Segundo Eusébio de Cesaréia, o relato de Clemente de Alexandria (Historia Eclesiastica 2.23.3,19), é basicamente o mesmo de Hegesipo. Em Josefo, a ordem de execução de Tiago é do sacerdote saduceu (Ananias) e são os fariseus que se revoltam contra isso. "Mais uma vez", nos diz Meier, "é altamente improvável que a versão de Josefo seja resultado de uma montagem cristã"[5].
f) A passagem não dá testemunho das virtudes de Tiago, o Justo: Em linha com as razões c) e e), o Professor Geza Vermes argumenta que não só o interesse de Josefo está centrado na conduta precipitada e inadvertida de Anás, mas como nada diz sobre as admiráveis virtudes que Hegesipo atribui a vítima. Na versão cristã, Tiago, o Justo, era consagrado ao Senhor desde seu nascimento, não bebia vinho ou bebida forte, e sobre sua barba e cabelo nunca havia passado navalha. Josefo diz apenas que era o irmão Jesus, chamado Cristo, focando seu interesse na atmosfera política conturbada da Jerusalém do I século, usando a história como exemplo dessa realidade [6]. Ou seja, se a frase que identifica Tiago com Jesus Cristo tivesse sido inserida no texto por cristãos, seria muito estranho que eles tivessem parado por aí, não aproveitando para escrever um breve testemunho do grande Tiago, o Justo.
g) A frase é mencionada pelos pais da Igreja, a partir do início do sec. III: Além disso, Orígenes (cerca de 240 DC) cita uma referência de Josefo a Tiago "o irmão de Jesus, chamado Cristo" que se encontrava no "Livro XX de Antiguidades" (Contra Celso 1.47; Contra Celso 2.13; Comentário em Mateus 10:13), e a frase é encontrada desta forma neste mesmo livro. O que é por si só, é uma evidência textual de primeira ordem. Dr. Paul Winter observa que uma vez que a frase em Antiguidades 20:9:1 (§200) é, dessa forma, atestada como anterior a Orígenes, não há nenhuma boa razão para acreditar que "irmão de Jesus, chamado Cristo" na passagem sobre Tiago foi escrita por qualquer outra pessoa que não o próprio Josefo [7].
Só que Origenes (e Eusébio e Jerônimo) cita a passagem bem mais "embelezada", dizendo que "Josefo, que não acreditava que Jesus era o Messias [Cristo], quando estava a buscar as razões da destruição de Jerusalém e a demolição do Templo, e deveria ter dito que as maquinações contra Jesus foram a causa das misérias que atingiram o povo, pois tinha matado o Cristo que foi anunciado pelos profetas. Ele, embora não estivesse disposto a admitir, e ainda como alguém não distante da verdade diz: Estas tragédias atingiram os judeus como retribuição ao que fizeram com Tiago, o Justo, irmão de Jesus chamado o Cristo, pois eles o mataram, mesmo sendo uma pessoa distinta por sua justiça". O mais provável é que esses acréscimos sejam devido a um erro de Origenes ou que ele tenha misturado o relato de Josefo e Hegesipo, uma vez, como observa a Dra. Alice Whealey, que os nomes tem grafia semelhante em grego, e ambos escritores mencionam a morte de Tiago e o cerco e destruição de Jerusalém [8].
No entanto, alguns estudiosos, como o Professor James Tabor, da Universidade da Carolina do Norte [9], acreditam que tenha havido uma segunda passagem referindo-se a Tiago em Antiguidades, hoje perdida (existe algum precedente para isso, em Antiguidades 20.7.2, Josefo diz que o filho do Procurador Felix e Drusila, chamado Agripa morreu na erupção do Vesuvio. Ele diz que descreveria o ocorrido, mas não encontramos esse relato no texto atual de Antiquites.
[adicionado em 15.07.2011: De qualquer forma, vale observar que na seção em que a execução de Tiago é descrita, Josefo observa várias vezes uma situação de crescente degradação e desordem no país. Assim, no parágrafo seguinte (20:9:2 §206), lemos que os servos do Sumo-Sacerdote Ananias se associaram a alguns marginais para roubar os dízimos recebidos pelos outros sacerdotes, espancando aqueles que resistiam, e que os servos dos outros sumo-sacerdotes começaram a agir da mesma forma, "e ninguém os impedia, levando aos sacerdotes que nos tempos antigos eram mantidos pelo dízimo pago a morrerem de fome" (§207). Os sicários então sequestraram o filho do Sumo-Sacerdote Ananias, que foi forçado a convencer o Procurador Albino a libertar dez membros daquele grupo, "o que foi o começo de grandes calamidades" (§ 209), pois os bandidos passaram então a capturar servos do Sumo-Sacerdote para forçar a libertação de seus cumplices, e assim seu número cresceu cada vez mais " e se tornaram mais ousados, e eram uma fonte tormento para a nação" (§ 210). Um pouco adiante, Josefo relata que Jesus, filho de Damasco, foi substituido por Jesus, filho de Gamaliel, e que isso causou um tumulto entre os dois sumos-sacerdotes, e seus partidários formaram bandos que brigavam e se apredejavam nas ruas (§ 213), enquanto que dois membros da familia real, Costobarus e Saulo, parentes do Rei Herodes Agripa, reuniram um grande número de marginais, que usaram de violência contra o povo "e a partir dai, principalmente, a cidade estava em grande desordem, e a nossa situação piorava cada vez mais" (§ 214). Provando a eficiência da Lei de Murphy, Albino, sabendo que havia sido substituido por Géssio Floro, ordenou a execução de muitos prisioneiros, e libertou varios outros, obtendo deles suborno, de forma que "as prisões ficaram vazias, mas o pais cheio de ladrões" (§ 215). Por fim, Josefo expressa sua insatisfação com os Levitas, que persuadiram o Rei Agripa e o Sinédrio a lhes conceder o direito de utilizar as mesmas vestes dos sacerdotes, afirmando "tudo isso é contrário aos costumes de nossa nação, que sempre que foram transgredidos, foram causa de punições que nós nunca conseguimos evitar" (§ 218). Um pouco depois, Jesus filho de Gamaliel foi substituido por Matias, Filho de Teófilo, sob o qual a Guerra com os Romanos começou (§ 223). Nesse contexto de várias calamidades e infortúnios, não é estranho que Orígenes tenha sido induzido a pensar que Josefo estava procurando as causas da destruição de Jerusalém.]

i) A partir do final do século II, houve uma tendência dos cristãos de considerar Tiago não mais irmão, mas meio ou primo irmão de Jesus: Alice Whealey [11] enfatiza um outro ponto. Chamar Tiago de irmão de Jesus não seria problema para um escritor judeu não cristão do I século. Como também não o foi para Paulo e os evangelistas. No entanto, a partir de meados do II século, referir-se a Tiago como irmão de sangue do Senhor se torna cada vez mais problemático, em virtude da doutrina, cada vez mais disseminada, da virgindade perpétua de Maria. No Proto-Evangelho de Tiago (cerca de 150 DC), Tiago, Simão, Judas e José são retratados como filhos do 1° casamento de José, que agora sendo um viúvo de avançada idade, se casa com Maria, uma menina, para viverem em castidade. Também na literatura não-ortodoxa, o vínculo de sangue entre Jesus e Tiago passa a ser negado, como no 1º e 2ºApocalipse de Tiago e o Apócrifo de Tiago. Os pais da igreja, dos séculos III e IV, como Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes, Eusébio ao citar o termo bíblico os "irmãos do Senhor" se apressam a esclarecer que eles não eram irmãos de sangue, mas meio-irmãos por parte de pai. Posteriormente,Jerônimo, no final do século IV, defende vigorosamente a vingindade perpétua de Maria, e afirma que Tiago sequer era irmão de Jesus, mas apenas primo-irmão, acusando de heresia aqueles que, como Helvídio e Joviano, diziam que Maria e José tiveram filhos. Aqui podemos acrescentar as observações do Prof. Bart Erhmann, da Universidade da Carolina do Norte, de que virgindade perpétua de Maria se torna desde cedo uma doutrina importante da igreja, e evidenciada pela popularidade do proto-evangelho de Tiago, com numerosos manuscritos antigos descobertos, principalmente na cristandade oriental, na área de influência da Igreja Ortodoxa Grega. Da mesma forma, no ocidente, o Proto-Evangelho de Tiago não encontrou recepção tão positiva, justamente pela força da posição de Jerônimo, que rapidamente se tornaria a posição católica-romana sancionada [12]. Em face da poderosa doutrina da virgindade perpétua de Maria, observa Whealey [13], seria quase inconcebível um cristão nos séculos IV ou V, referir-se a Tiago como irmão de Jesus, sem nenhuma ressalva, como Tiago "meio" ou "primo", arriscando-se a incorrer em heresia, por sugerir que Maria pudesse ter outro filho além de Jesus, quanto mais inserir no texto de Josefo a frase "irmão de Jesus, chamado o Cristo" sem adicionar também "primo" ou "meio" na mesma sentença. No período em que a suposta interpolação teria ocorrido, um cristão escreveria "o meio-irmão" ou o "primo-irmão" de Jesus, chamado o Cristo.

Objeções a autenticidade:
a) "Porque um sumo sacerdote perderia o cargo por executar o irmão de Jesus"?
De fato, uma vez que o cristianismo era um movimento marginal, visto com desconfiança pelas autoridades romanas e judaicas, a objeção faz sentido.
"a queixa, embora baseada na desaprovação da execução de Tiago, irmão de Jesus, não remetia formalmente a execução em si, mas o fato de Anás II ter convocado o Conselho sem a devida autorização (...) deste modo não era permitido a Anás convocar o Conselho sem a aprovação do Governador. A ilegalidade da medida de Anás não residia no fato de ele ter executado Tiago, mas sim nas circunstâncias em que ele convocou o Conselho, sem a autorização de seus superiores políticos, nem das autoridades romanas, nem das Herodianas (...) Os romanos, em particular, teriam visto com desconfiança uma reunião do Grande Conselho durante um interregno, quando nenhum procurador estava presente na Judéia; decisões tomadas nesses períodos podiam facilmente contrariar seus interesses.
A ilegalidade da atitude de Anás não estava no fato de ele ter executado Tiago. Se fosse essa a acusação contra ele, os romanos não teriam ficado satisfeitos com a mera destituição do Sumo-Sacerdote por Agripa, Rei de Calcis, teriam-no processado bem como todos os que participaram dos procedimentos contra Tiago, por assassinato. Como nenhuma medida foi tomada contra nenhum dos membros do Sinédrio, exceto o próprio sacerdote que convocara a sessão, e como Anás II foi simplesmente afastado do seu cargo, sem nenhuma acusação contra ele ou qualquer de seus aliados, torna-se claro que os romanos não consideraram ilegal a execução de Tiago, mas fizeram objeções a convocação não autorizada do Grande Sinédrio durante a ausência do representante do Imperador [14] Além disso podemos acrescentar, a carta de Paulo aos Galátas recorda os conflitos entre ele e os judaizantes, que insistiam que os novos convertidos gentios deviam seguir a Lei Judaica e se circuncidar. Somente com o endosso das colunas (Tiago, irmão do Senhor, Pedro e João) é que Paulo pode prosseguir com sua missão (Galatas 2:9-10). Em todo caso, o rigor de Tiago com a observância da Lei é evidenciado quando Paulo relata que teve um desentendimento com Pedro em Antioquia, por que ele (e Barnábe), que comiam com os gentios, se separaram deles quando emissários da parte de Tiago, que eram da circunsição, chegaram (2:11-12). Também o relato do Concílio de Jerusalém (Atos 15), mostra uma preocupação de Tiago, para que os crentes judeus, permanecessem na observância da Lei e da circunsição, liberando os crentes gentios dessas exigências. Por volta de 140 DC, Justino Martir nos diz que os cristãos judeus continuavam a observar a Lei Mosaica, contudo alguns não exigiam que os cristãos gentios o fizessem, enquanto outros insistiam na observância da Lei também para os gentios, referindo-se, provavelmente, a nazarenos e ebionitas, respectivamente, ambos tendo Tiago em altíssima conta, mas esses últimos aparentemente rejeitando os ensinos de Paulo.
Assim, sendo Tiago um judeu que zelosamente seguia a Lei, sua condenação pelo Sinédrio seria injusta, e só poderia ser explicada por ele ser irmão de Jesus de Nazaré. A exasperação de alguns mestres da lei, pode ser resultado dessa percepção, talvez Tiago até merecesse um castigo, um corretivo, mas a execução combina com o rigor dos saduceus, "mais insensíveis que outros judeus quando julgam". No entanto, mesmo que esses cidadãos zelosos com a Lei tenham ficado aborrecidos, o fato é que, a princípio, se limitaram a exigir que "Anás desistisse de outras ações", como aquela, uma atitude do tipo "o que passou, passou, mas não faça isso de novo, por favor". Apesar da exasperação dos que eram zelosos da Lei, nada se diz sobre o caráter das vitimas, não se diz se a execução era injusta ou apenas exagerada. Alguns outros fazem uma queixa aos romanos, mas não dizem que Anás mandara executar um homem justo, mas que convocara o Sinédrio sem autorização. Em suma, o senso de que Anás exagerara no castigo possivelmente se combinou a deposição abrupta de seu antecessor (Jose, chamado Cabi, filho de Simão), a possibilidade de remover sua influente família do cargo (que já contara 6 sumo-sacerdócios), abrindo caminho para oligarquias não contempladas.
(acrescentado em 23.02.2011) [Alías, o uso de um deslize de uma figura poderosa, como pretexto para enfrace-lo, por seus adversários políticos não é algo incomum seja na Antiguidade quanto no presente. O fato de que Josefo, explicitamente, começa seu relato afirmando que Anás era saduceu, enquanto que indica que a ação para contesta-lo teve origem nos que eram "zelosos observadores da Lei" (fariseus), é forte indício de que o ato precipitado de Anás foi visto por alguns como uma oportunidade para indispor ele e sua poderosa família com os romanos, dando chance a um novo equilibrio de poder. Assim, a pressa de alguns desses zelosos observadores da Lei em encontrar Albino ainda no caminho de Alexandria, não se deu tanto em razão de sua angustiados pela execução de Tiago e seus companheiros, ou porque estivessem preocupados com minúcias do direito romano, mas porque a ação precipitada e inusitadamente ousada do Sumo Sacerdote, usurpando poderes formais do Procurador, abriu uma avenida de oportunidades para seus adversários políticos.
Tenos exemplos na obra de Josefo. Geza Vermes observa um outro caso semelhante, envolvendo um revolucionário galileu no tempo de Herodes:
"Ezequias, o capitão ladrão, foi o líder de um bando de soldados que vagavam pela Galiléia quando o futuro Rei herodes, o Grande, então com cerca de 25 anos de idade, era seu Governador em meados do século I AC. Tudo o que sabemos com certeza é que Ezequias foi capturado e condenado a morte por Herodes . Mas, ao invés de ser cumprimentado por livrar a província de bandidos, Herodes foi levado perante o Sinédrio e julgado por execuções sumárias depois que as queixas das mães dos executados foram ouvidas por Hircano II, Sumo Sacerdote e Etnarca" [15]
Tenos exemplos na obra de Josefo. Geza Vermes observa um outro caso semelhante, envolvendo um revolucionário galileu no tempo de Herodes:
"Ezequias, o capitão ladrão, foi o líder de um bando de soldados que vagavam pela Galiléia quando o futuro Rei herodes, o Grande, então com cerca de 25 anos de idade, era seu Governador em meados do século I AC. Tudo o que sabemos com certeza é que Ezequias foi capturado e condenado a morte por Herodes . Mas, ao invés de ser cumprimentado por livrar a província de bandidos, Herodes foi levado perante o Sinédrio e julgado por execuções sumárias depois que as queixas das mães dos executados foram ouvidas por Hircano II, Sumo Sacerdote e Etnarca" [15]
"Herodes derrotou, capturou e executou Ezequias, o capitão ladrão revolucionário galileu, e alguns de seus seguidores. Herodes foi convocado perante o Sinédrio por execuções ilegais, mas escapou impune graças a interferência do Sumo sacerdote Hircano II" [15]
O episódio é relatado em Antiguidades 14:9:3-5 (§163-177). Da mesmo forma, é pouco provável que o Sinédrio tenha ficado tão enfurecido "apenas" por Herodes ter livrado a Galíleia de bandidos, capturando e executando o "arqui-ladrão" Ezequias. Josefo escreve que os "principais lideres dos judeus"(§163) ficaram exasperados com a crescente influência da Herodes, seus irmãos e seu pai Antipatro, e crescentemente atemorizados porque percebiam que Herodes era "um homem violento e atrevido, e dado a agir tiranicamente", e portanto utilizaram o fato de Herodes ter executado Ezequias por conta própria, sem leva-lo a julgamento ao Sinédrio, como pretexto para eliminar a crescente ameaça representada por Herodes. Aqui, como no caso de Anás, adversários politicos preocupados com o poder crescente concentrado sob um jovem de temperamento ousado, e dado a violência e crueldade, utilizam um erro processual para tentar se livrar dele.
(Mesmo Julio César não esteve livre desse tipo de "ardil". O Professor Adrian Goldsworthy, observa que Catão, o Jovem, propôs ao Senado que Cesar fosse processado porque havia atacado bárbaros na Galia durante uma tregua [16]. Obviamente, bem estar dos barbáros, sejam gauleses, tradicionais inimigos de Roma, ou germânicos era basicamente um pretexto utilizado por Catão e outros Senadores para tentar destituir, o arrojado e crescentemente poderoso, Júlio César de seus poderes, bem como seus exércitos.) ]
O episódio é relatado em Antiguidades 14:9:3-5 (§163-177). Da mesmo forma, é pouco provável que o Sinédrio tenha ficado tão enfurecido "apenas" por Herodes ter livrado a Galíleia de bandidos, capturando e executando o "arqui-ladrão" Ezequias. Josefo escreve que os "principais lideres dos judeus"(§163) ficaram exasperados com a crescente influência da Herodes, seus irmãos e seu pai Antipatro, e crescentemente atemorizados porque percebiam que Herodes era "um homem violento e atrevido, e dado a agir tiranicamente", e portanto utilizaram o fato de Herodes ter executado Ezequias por conta própria, sem leva-lo a julgamento ao Sinédrio, como pretexto para eliminar a crescente ameaça representada por Herodes. Aqui, como no caso de Anás, adversários politicos preocupados com o poder crescente concentrado sob um jovem de temperamento ousado, e dado a violência e crueldade, utilizam um erro processual para tentar se livrar dele.
(Mesmo Julio César não esteve livre desse tipo de "ardil". O Professor Adrian Goldsworthy, observa que Catão, o Jovem, propôs ao Senado que Cesar fosse processado porque havia atacado bárbaros na Galia durante uma tregua [16]. Obviamente, bem estar dos barbáros, sejam gauleses, tradicionais inimigos de Roma, ou germânicos era basicamente um pretexto utilizado por Catão e outros Senadores para tentar destituir, o arrojado e crescentemente poderoso, Júlio César de seus poderes, bem como seus exércitos.) ]
Para os romanos, como diz Winter, o ponto é direto. Anás poderia estar certo em executar Tiago, e nada se objetaria a isto, em condições normais. Mas se ele convocou o Grande Conselho, com o Procurador ausente, para julgar Tiago e seus amigos, poderia te-lo feito para coisas que contrariassem o interesse de Roma, ou mesmo dele, Albino (vale lembrar, conforme Ant. 18:85-89, 30 anos antes, o Senado samaritano se reuniu e articulou a deposição do Governador Pôncio Pilatos junto ao seu chefe, o legado romano na Síria).
Referencias Bibliograficas
[1] Louis Feldman & Gohei Hata (1989), "Josephus, Judaism, and Christianity", pagina 56
[2] Paul Winter (1968), "Excursus II -Josephus on Jesus and James," in E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 430. Paul Winter cita os trabalhos de Benedict Niese (1893), Emil Schurer (1901), G. Holscher (1904) e J. Juster (1914) como aqueles que rejeitaram tanto o Testimonium Flavianum quanto a referência a Tiago, "irmão de Jesus, chamado o Cristo" como interpolações. Posteriores a I Guerra Mundial, e até a conclusão do estudo de Winter, temos Solomon Zeitlin (1928). Observamos, por relevante, que todos esses autores acreditavam na existência e influência de Jesus.
[3] John Painter (2004) "Just James: The Brother of Jesus in History and Tradition", fl. 134
[4] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, um Manual, fl. 85
[5] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl 67.
[6] Geza Vermes (2010), "Jesus in the Eyes of Josephus", Staindpoint mag, jan/fev. 2010, http://www.standpointmag.co.uk/node/2507/full, acessado em 08.02.2010
[5] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl 67.
[6] Geza Vermes (2010), "Jesus in the Eyes of Josephus", Staindpoint mag, jan/fev. 2010, http://www.standpointmag.co.uk/node/2507/full, acessado em 08.02.2010
[7] Paul Winter (1968), "Excursus II -Josephus on Jesus and James," in E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 432
[8] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 108-109.
[9] James Tabor (2006), A Dinastia de Jesus, fl. 300
[10] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fls. 110-111.
[11] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fls. 112-113.
[12] Bart Erhmam, (2003) "Evangelhos Perdidos: As Batalhas pela Escritura e os Cristianismos que não chegamos a conhecer", fl. 210.
[13] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fl. 114.
[14] Paul Winter (1961), Sobre o Processo de Jesus, fls. 55-57
[15] Geza Vermes (2005), Quem é Quem na època de Jesus, fls. 107 e 131
[16] Adrian Goldsworthy (2002), Caesar's civil war, 49-44 BC, fl. 29; Ver também Luciano Canfora, Julius Caesar, The People's Dictator, fl. 122. Julio César, A Guerra Civil, 4:12-15, bem como Plutarco, Cesar, 22:4 e Catão, o Jovem, 51.
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